Turismo religioso: como a fé movimenta destinos
O que faz alguém sair de casa e percorrer centenas de quilômetros até um santuário? Para algumas pessoas, a resposta está em uma promessa. Para outras, no agradecimento, na tradição da família ou na vontade de conhecer um lugar que ocupa uma posição importante em sua fé. Em Aparecida, no interior de São Paulo, essas motivações ajudam a compreender uma viagem que começa muito antes da chegada à basílica.
Celebrado em 12 de outubro, o dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, oferece um ponto de partida para olhar além de uma única tradição. O turismo religioso envolve diferentes crenças e formas de viajar. Compreender esse movimento exige atenção tanto à experiência de quem se desloca quanto aos territórios que recebem essas pessoas.
A dimensão de Aparecida ajuda a tornar essa relação concreta. Segundo o Santuário Nacional, foram registrados mais de 10 milhões de visitantes em 2025. No dia 12 de outubro daquele ano, o movimento chegou a mais de 150 mil devotos. Os números mostram duas escalas de planejamento: a visitação ao longo do ano e a concentração em uma data específica. 1
A mesma viagem pode ter motivações diferentes
Uma pessoa entra em um templo para rezar. Outra acompanha um familiar. Uma terceira quer conhecer a arquitetura e a história. Elas podem compartilhar o mesmo espaço, mas chegam com expectativas diferentes. Essa distinção muda a maneira de interpretar o fluxo turístico e de organizar o acolhimento.
Nas orientações do Ministério do Turismo, o turismo religioso está associado a atividades motivadas pela busca espiritual e pela prática religiosa. Já uma viagem movida pelo interesse histórico ou estético em um patrimônio religioso é tratada como turismo cultural. Na experiência do visitante, essas motivações podem se combinar; para o planejamento, reconhecê-las ajuda a oferecer informação e serviços adequados. 2
Peregrinação e turismo também não são categorias que precisam se excluir. Um peregrino pode utilizar hotéis, transporte e guias sem que isso retire o sentido religioso do deslocamento. Ao mesmo tempo, participar de uma festa na própria cidade não transforma automaticamente um morador em turista. Identificar a origem dos participantes é fundamental para compreender o movimento que um evento realmente gera.
Cristianismo e diferentes maneiras de reunir pessoas
No catolicismo, Aparecida permite observar como um lugar de devoção se articula à viagem. A ida pode reunir familiares, integrar uma romaria organizada ou incluir uma visita ao patrimônio. Para quem recebe, importa saber como o grupo chega, quanto tempo permanece e quais serviços procura. A experiência de fé continua sendo central, mas sua realização depende de condições práticas.
O cristianismo também compreende tradições evangélicas com outras formas de encontro. A Marcha para Jesus de Curitiba, por exemplo, aparece no calendário da Secretaria do Turismo do Paraná como evento de turismo religioso. Nesse caso, ruas e espaços de reunião integram a experiência, ampliando o planejamento para circulação, transporte e convivência urbana. 3
Esses exemplos mostram por que o segmento precisa ser analisado além das fachadas de igrejas. Um santuário com visitação permanente e um encontro marcado para determinada data demandam estratégias diferentes. A divulgação turística deve explicar a natureza da atividade e orientar quem deseja participar, sem presumir que todas as tradições cristãs tenham os mesmos ritos.
Islamismo e a organização da peregrinação
No islamismo, o Hajj, realizado em período específico do calendário islâmico, é uma peregrinação a Meca e aos locais dos ritos associados, na Arábia Saudita. Ele constitui um dos pilares da religião e uma obrigação para os muçulmanos que possuem condições de realizá-lo. A Umrah é outra peregrinação, com ritos próprios, que pode ocorrer ao longo do ano, respeitando as medidas de organização de cada período. 4, 5
A autoridade estatística saudita, GASTAT, registrou mais de 1,6 milhão de peregrinos no Hajj de 2025. Esse total se refere àquela edição da peregrinação, enquanto o número citado para Aparecida cobre um ano de visitação. A diferença de recorte importa: os dados ajudam a dimensionar operações, mas não permitem uma comparação direta de popularidade entre religiões. 6
A plataforma oficial Nusuk Hajj reúne opções de serviços como hospedagem, alimentação, deslocamentos e orientação aos peregrinos. Sua estrutura evidencia uma viagem em que a integração dos serviços é decisiva. 7 O calendário dos ritos orienta a operação; ao visitante, cabe compreender o caráter religioso da jornada. Peregrinar e conhecer culturalmente uma mesquita são experiências distintas, cujas condições de participação precisam ser verificadas nos canais oficiais.
Hinduísmo e os destinos que se organizam para uma celebração
Na Índia, o Kumbh Mela é uma celebração de peregrinação ligada ao banho ritual em rios sagrados. Inscrita pela UNESCO na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2017, a manifestação permite perceber que o lugar religioso pode ser um território amplo de encontros e práticas, e não apenas uma construção. 8
Para a gestão turística, uma concentração dessa natureza coloca questões sobre estruturas temporárias, abastecimento, deslocamentos e proteção ambiental. O espaço precisa acolher a celebração e continuar servindo às pessoas que vivem ali. Planejar a chegada é apenas parte do trabalho: também é necessário considerar a saída dos participantes e as condições deixadas no território.
O exemplo não representa todas as tradições hindus. Ele mostra uma forma específica de mobilidade religiosa em que calendário, ritual e território estão estreitamente relacionados. Para quem visita por interesse cultural, entender essa relação ajuda a reconhecer o significado da celebração antes de procurar uma fotografia.
Budismo e a convivência entre peregrinação e patrimônio
Lumbini, no Nepal, é reconhecida pela UNESCO como o lugar de nascimento de Buda e um centro de peregrinação budista. Seus vestígios arqueológicos integram a experiência de um território em que a memória religiosa e a preservação do patrimônio se encontram. 9
Essa combinação permite compreender públicos diferentes: quem chega por devoção e quem deseja aprender sobre a história do lugar. Receber ambos exige informação que explique o patrimônio e reconheça a continuidade das práticas religiosas. A visitação precisa encontrar espaço sem comprometer o uso do local por seus praticantes.
Também é importante evitar uma associação automática entre budismo e qualquer viagem anunciada como espiritual. Visitar um templo, participar de um retiro e realizar uma peregrinação são atividades distintas. Para o viajante, saber quem organiza a experiência e qual é sua finalidade ajuda a escolher uma atividade coerente com seu interesse.
Judaísmo e a visita a um espaço de oração
Em Jerusalém, o Muro Ocidental é uma referência de oração no judaísmo. A instituição responsável pelo local mantém orientações para visitantes e destaca seu caráter sagrado, pedindo respeito às pessoas que ali rezam. O patrimônio recebe diferentes olhares, mas sua função religiosa não desaparece com a presença de visitantes. 10
Jerusalém reúne lugares importantes para o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Essa pluralidade pede cuidado na interpretação turística: a cidade não pode ser apresentada como pertencente a uma única tradição. Também exige atenção ao contexto local, às condições de acesso e às orientações atualizadas de cada instituição.
Para quem visita, compreender um lugar sagrado começa por observar seus usos. Uma oração não é uma apresentação organizada para o público. O papel de um guia ou de uma informação bem construída é aproximar o visitante da história sem apagar o sentido que aquele espaço conserva para a comunidade.
Religiões de matriz africana e o protagonismo das comunidades
No Brasil, a Festa de Iemanjá, realizada em 2 de fevereiro no Rio Vermelho, em Salvador, reúne devoção e presença de visitantes em uma celebração ligada às tradições de matriz africana. A Secretaria de Turismo da Bahia registra a articulação da festa com ações culturais e ambientais, mostrando que o acolhimento envolve tanto a valorização religiosa quanto o cuidado com o território. 11
O turismo associado a essas tradições precisa reconhecer a participação de quem mantém os saberes e as práticas. Candomblé e umbanda não são uma única religião, e uma celebração pública não informa, por si só, como funciona a visitação a um terreiro. A possibilidade de receber visitantes deve ser definida pela comunidade responsável.
Isso tem consequências para a gestão. Uma proposta de visita precisa estabelecer quem conduz a experiência, quais espaços podem ser conhecidos e como os benefícios serão distribuídos. Fotografias e divulgação também dependem de acordos claros. O enfrentamento ao racismo religioso faz parte dessa relação, assim como o reconhecimento de seus praticantes como interlocutores na construção de qualquer atividade turística. 12
O que muda no planejamento dos destinos
Os exemplos apresentados indicam formas diferentes de movimento: visitação permanente, viagens concentradas em uma celebração e peregrinações com etapas e ritos próprios. A gestão precisa partir dessa diferença para dimensionar a capacidade de acolhimento, em vez de aplicar o mesmo modelo a todos os lugares.
Uma primeira tarefa é conhecer os públicos. Quantos participantes vêm de outras cidades? Quantos passam a noite no destino? Como chegam? Um grupo que retorna no mesmo dia e outro que permanece vários dias utilizam serviços de maneiras diferentes. Contar entradas, reservas de hospedagem e participantes de eventos produz informações distintas, que precisam ser interpretadas dentro de seu recorte.
Outra tarefa é organizar a circulação considerando os moradores. A chegada de visitantes pode favorecer o comércio e gerar trabalho, mas esses benefícios dependem de como a atividade é estruturada. Congestionamentos, pressão sobre serviços e restrições à rotina local também devem entrar no planejamento. O resultado não se mede apenas pela quantidade de pessoas recebidas.
Também vale perguntar quem consegue participar das oportunidades econômicas criadas pela visitação. Pequenos estabelecimentos, guias locais e produtores do entorno podem integrar a oferta, desde que a organização não concentre toda a experiência em poucos operadores. Ouvir esses profissionais ajuda a identificar necessidades de formação, informação e articulação comercial. Essa escuta deve alcançar também os moradores que não trabalham com turismo, mas convivem com seus efeitos. Ao avaliar os resultados de uma celebração, o destino pode observar a qualidade do atendimento, as dificuldades de circulação e as condições de manutenção dos espaços. Reunir essas informações após o evento permite ajustar a próxima edição e construir uma relação mais consistente entre a atividade turística e a vida local.
As próprias instituições religiosas precisam participar das decisões, junto a gestores públicos e prestadores de serviços. Esse diálogo permite conciliar o calendário de celebrações, a conservação do patrimônio e as necessidades de acesso. Uma rota acessível, informação compreensível e lugares para descanso são condições de acolhimento que fazem diferença para quem viaja e para quem utiliza o espaço cotidianamente.
Como conhecer lugares de fé com mais atenção
Para o turista, uma visita mais interessante começa antes da chegada. Consultar a instituição responsável permite compreender horários, possibilidades de entrada e orientações de comportamento. Quando o lugar oferece visita guiada, esse acompanhamento pode ajudar a entender referências que uma observação rápida deixaria passar.
Durante a visita, vale respeitar os momentos de oração, perguntar antes de fotografar pessoas e reconhecer que certas atividades não estão abertas ao público. Quem chega por curiosidade cultural não precisa compartilhar a crença para agir com respeito. Precisa, porém, aceitar que a comunidade tem autoridade sobre seus espaços e práticas.
Aparecida abre essa conversa por sua ligação com 12 de outubro. Ao ampliar o olhar, encontramos outras razões para partir e outras formas de acolher. O turismo religioso ganha profundidade quando a viagem permite compreender essas diferenças e quando seu planejamento sustenta a experiência de quem visita, a continuidade da vida religiosa e o cotidiano de quem mora.
Fontes consultadas
- Santuário Nacional de Aparecida. Em 2025 Basílica de Aparecida acolheu 10,5 milhões de fiéis. Publicado em janeiro de 2026.
- Ministério do Turismo. Turismo Cultural Orientações Básicas. 3ª edição, 2010.
- Secretaria do Turismo do Paraná. Marcha Para Jesus em Curitiba. Calendário de eventos.
- Nusuk. The Journey. Ministério do Hajj e da Umrah da Arábia Saudita.
- Nusuk. Umrah e sua realização ao longo do ano.
- General Authority for Statistics. Estatísticas oficiais do Hajj de 2025.
- Nusuk Hajj. Plataforma oficial e serviços de peregrinação.
- UNESCO. Kumbh Mela. Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
- UNESCO. Lumbini the Birthplace of the Lord Buddha. Patrimônio Mundial.
- Western Wall Heritage Foundation. Procedures. Orientações para visitantes do Muro Ocidental.
- Secretaria de Turismo da Bahia. Fé e tradição marcam a Festa de Iemanjá em Salvador. Fevereiro de 2026.
- Ministério da Igualdade Racial. Política Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e Matriz Africana.

